É noite. O frio, mais do que o cheiro do medo, preenche a escuridão. Barulhos inquietantes escondem-se por trás da folhagem. Todos dormem, menos aquele que sonha com o seio da mãe. Lembra-se de quando era menino e bastava enroscar-se no colo da mãe, e sorver o líquido quente, calmante natural.
Dura pouco este laço maternal. Todos têm de procurar sobreviver. Em poucos anos desfaz-se a ligação, e a mãe volta a procriar, qual animal, para garantir que na estação seguinte haja mais homens para caçar, e mais mulheres para procriar. O filho, absorvido pelos instintos animais, junta-se aos homens, preparam-se para caçar, e, ao voltarem, cheios de si, e de sangue, celebram a grande caçada que vai permitir ao grupo comer e sobreviver por mais uns dias.
Assim se passa com todos os membros deste grupo, que partilham laços de sangue entre si. Tal é causador de algumas mortes prematuras, mas estão ainda imbuídos de uma tal animalidade que não perdem tempo a lamentar, ou a perguntar porquê. Isso virá mais tarde.
É noite. As mulheres escolhem o companheiro por mais uma estação. A primeira escolha é dada à mulher mais velha, aquela que é mãe de muitos membros deste grupo, meio homem, meio animal. Ela escolhe o mais capaz, mais forte, o que caçou mais, que venceu mais lutas aquando da grande celebração. Ela própria é a mais capaz entre as mulheres, a mais fértil.
A estação passa e chega ao fim e a maioria das mulheres tem o ventre cheio. Nascem mais filhos, muitos morrem antes de verem chegar mais uma estação.
Ainda não são capazes de se perguntar porquê, de chorarem. Sentem uma necessidade feroz de sobreviverem, têm medo de não verem outra estação, como aquele ser que jaz no colo da mãe, sem vida. As mães que perdem os filhos ficam confusas, abanam as crias, mas elas não respondem. Não choram, porque não são capazes. Ainda não. Os homens não sentem nada por uma criança que não sobrevive. Não percebem que são o fruto de uma celebração, em que foram escolhidos para semear uma vida. Ainda não.
Sem comentários:
Enviar um comentário