10 outubro 2006

Medo

É por medo que os homens tomam posse das mulheres e chamam seus os filhos delas. Demoraram muito tempo a perceber como é que as crianças são geradas, mas assim que o perceberam, não perdem tempo.
Naturalmente, não o perceberam todos ao mesmo tempo, foi falando entre si, constantando factos que as mulheres tentam esconder. Mesmo assim, não nasce aí o sentido de paternidade. Nasce uma nova propriedade. A procura de manter uma descendência. Nem tão pouco se pode limitar ao garante de um nome através de gerações, já que ainda não tomaram como seu um nome de família, nem tão pouco uma família. Essa virá mais tarde.
É por medo que as mulheres deixam que tomem os seus filhos. Medo por eles. Medo pela vida deles.
As meninas serão maltratadas, visto que já perderam todo o poder. Não é somente delas que vem a vida, e os homens reclamam a sua posse. São trocadas como qualquer outro objecto, perderam todo o valor. Mas as mães transmitem o que sabem desde o início dos tempos. Enquanto se é mãe, tem-se o poder.
Os meninos são educados para serem como o homem que os gerou. Brutos, autoritários. Mas enquanto mamam da mãe, abosrvem um pouco do seu poder. Saberão, instintivamente, que é delas que dependem, das mulheres. Capazes de tanto com tão pouco.
É deste leite que lhes nasce o medo.

05 outubro 2006

A procriação

De início, viviam solitários. Como os restantes animais. Procriavam quando se encontravam, homens e mulheres. Os homens não sabiam qual o resultado do acasalamento. Apenas satisfaziam uma necessidade inerente à sua condição masculina. O mesmo acontecia com as mulheres, apesar de elas começarem a ter a percepção da consequência. Teriam de passar alguns anos a cuidar do criança resultante, caçando para ambos, protegendo o seu rebento. Não é por amor que cuida dele e o faz crescer, é por instinto. Alguns anos passados, ficariam sozinhas e recomeçariam tudo de novo. Até que o primeiro filho decidiu ficar junto da sua mãe, e juntos começaram a dividir tarefas. Ele caça, ela procura ervas que curam. E mais crianças nascem.

Por necessidade, homens e mulheres começam a viver juntos. As mulheres deixaram de caçar, proíbem os homens. Elas prometem ser mais capazes e uma ameaça para a masculinidade dos caçadores legítimos. A verdade é que, desde sempre, a mulher mostra mais aptidão para uma maior variedade de tarefas, enquanto os homens, condição inerente a si próprios, especializam-se em dois ou três afazeres. Por medo de serem suplantados, afastam-nas.

Em pouco tempo, uma mulher consegue ligar o facto de acasalar, com o nascimento dos bebés. Já possuem uma ligação forte com os seus filhos, apesar de lhes serem negados muitos direitos. Não são responsáveis pelos filhos homens. As meninas serão educadas para seguirem os seus passos. Desde que aprenderam a viver em conjunto, as mulheres perderam a liberdade que possuíam longe deles. Mas resignam-se, e não conhecem a experiência das que vieram antes. As lendas não falam de mulheres, mas de homens, dos seus feitos admiráveis.

Não contam aos homens que também são responsáveis pela geração de crianças. Sabem que tomarão posse delas e dos seus filhos, para poderem ter uma prole só sua. Elas, por medo, escondem que os homens têm um papel a desempenhar no crescimento do grupo. Uma mulher toma a decisão de associar a fertilidade e a prosperidade de todos à sua própria fertilidade. Um conto aqui, uma lenda ali e em menos de nada todos veneram a fertilidade feminina, e as mulheres ganham poder.

30 setembro 2006

A noite

É noite. O frio, mais do que o cheiro do medo, preenche a escuridão. Barulhos inquietantes escondem-se por trás da folhagem. Todos dormem, menos aquele que sonha com o seio da mãe. Lembra-se de quando era menino e bastava enroscar-se no colo da mãe, e sorver o líquido quente, calmante natural.

Dura pouco este laço maternal. Todos têm de procurar sobreviver. Em poucos anos desfaz-se a ligação, e a mãe volta a procriar, qual animal, para garantir que na estação seguinte haja mais homens para caçar, e mais mulheres para procriar. O filho, absorvido pelos instintos animais, junta-se aos homens, preparam-se para caçar, e, ao voltarem, cheios de si, e de sangue, celebram a grande caçada que vai permitir ao grupo comer e sobreviver por mais uns dias.
Assim se passa com todos os membros deste grupo, que partilham laços de sangue entre si. Tal é causador de algumas mortes prematuras, mas estão ainda imbuídos de uma tal animalidade que não perdem tempo a lamentar, ou a perguntar porquê. Isso virá mais tarde.

É noite. As mulheres escolhem o companheiro por mais uma estação. A primeira escolha é dada à mulher mais velha, aquela que é mãe de muitos membros deste grupo, meio homem, meio animal. Ela escolhe o mais capaz, mais forte, o que caçou mais, que venceu mais lutas aquando da grande celebração. Ela própria é a mais capaz entre as mulheres, a mais fértil.
A estação passa e chega ao fim e a maioria das mulheres tem o ventre cheio. Nascem mais filhos, muitos morrem antes de verem chegar mais uma estação.

Ainda não são capazes de se perguntar porquê, de chorarem. Sentem uma necessidade feroz de sobreviverem, têm medo de não verem outra estação, como aquele ser que jaz no colo da mãe, sem vida. As mães que perdem os filhos ficam confusas, abanam as crias, mas elas não respondem. Não choram, porque não são capazes. Ainda não. Os homens não sentem nada por uma criança que não sobrevive. Não percebem que são o fruto de uma celebração, em que foram escolhidos para semear uma vida. Ainda não.

28 setembro 2006

O Início

E foi no medo que tudo começou. O princípio dos tempos. O homem com medo da escuridão, com medo da luz, da sombra.

E foi no início dos tempos que o homem se recostou na mulher para conforto. E a primeira mulher que confortou o primeiro homem assustado com a sua própria sombra, e com a luz que espreitava para fora da gruta que os abrigava, percebeu, com toda a clarividência que acompanha a parte feminina do ser humano, que seria assim até ao fim dos tempos.

E foi a partir do medo que o homem decidiu subjugar a mulher. No medo daquele toque reconfortante, que afasta as trevas e traz a paz, no medo da sabedoria intuída que é a base dos melhores conselhos, no medo que a admirassem mais do que a ele, mais forte, mais resistente.

Ai de todos esses homens, que julgam conseguir subjugar a vontade feminina. Ai de todos aqueles que julguem poder conter a fúria de uma mulher desprezada.

Afortunados todos os homens que conseguem reverenciar a mulher como mãe, amante, irmã. Afortunados todos aqueles que conseguem ver o Poder como ele é. Feminino e imutável.

E assim se inicia um longo conto. De homens e mulheres.
Amedrontados, receosos, temerosos, capazes do amor mais profundo e sagrado.